Artigos de Opinião

Sara Eloy: “Arquitetura centrada no utilizador”

Sara Eloy,
diretora ISTAR-IUL

Ferramentas para os moradores participarem no desenho das suas casas

Há várias décadas que os arquitetos pesquisam e testam como projetar edifícios e bairros que apresentem soluções diversificadas e satisfaçam os desejos e aspirações de cada um dos seus habitantes. Diversos estudos surgiram com esse objetivo em mente. Exemplos são o trabalho pioneiro de John Habraken na década de 1960 (Habraken, 1972) com a abordagem Open Building assim como, mais recentemente, a abordagem incremental para habitação social do atelier Elemental (Aravena and Iacobelli, 2016).

Essas abordagens permitem a realização de processos de projeto participativo ou mesmo de co-design. Estes modos de projetar são processos que, com diferentes abordagens, consistem na colaboração de todas as partes interessadas na definição do projeto sendo que a solução final reflete as decisões tomadas em conjunto. O apego das pessoas aos lugares é um fator que as leva a participar em processos participativos desta natureza que se foquem nas casas e bairros onde habitam.

É comum assistirmos a processos de personalização do edificado por parte dos moradores. Apesar de salutar e indispensável ao sentimento de pertença da casa pelos seus moradores, estes processos de personalização por vezes têm um impacto negativo na qualidade da arquitetura dos bairros.

Um dos casos de estudo que utilizámos para esta reflexão foi o bairro da Malagueira, em Évora, projeto do Arquiteto Álvaro Siza Vieira nos anos 70. Apesar deste bairro ser um exemplo paradigmático do projeto participado aquando da sua génese, na atualidade é notório que muitas das habitações têm sido alteradas não cumprindo nem o estabelecido inicialmente no projeto nem o que foi autorizado em termos de alterações.

Nesse sentido temos vindo a investigar processos que ajudem a realizar alterações às habitações sem que as mesmas tenham impacto negativo nos edifícios. Para tal desenvolvemos ferramentas que podem gerar automaticamente propostas de alterações das habitações existentes e assim ajudem os moradores a atingir os seus objetivos sem adulterar a linguagem arquitetónica dos edifícios e bairros. O objetivo é que estas ferramentas permitam que os habitantes explorem possíveis modificações às suas casas e escolham configurações que sejam do seu agrado e necessidades.

Este trabalho faz parte de uma investigação em curso sobre o uso de ferramentas digitais para apoiar a transformação de edifícios existentes de modo arquitetonicamente responsável. Estas transformações podem ser necessárias, digamos cinco ou mais anos após a construção, devido a alterações na regulamentação (e.g. nova regulamentação sobre segurança ou sustentabilidade), à necessidade de atualizações (e.g. novas infraestruturas técnicas), a  alterações nas condições de vida dos habitantes (e.g. a necessidade de mais um quarto ou local de trabalho), ou a outros desejos dos habitantes (e.g. decoração do exterior da casa). Para chegar a transformações que sejam arquitetonicamente responsáveis, i.e. que não reduzam a qualidade da arquitetura original, usamos um sistema de desenho baseado em regras, como em Eloy (2012) e Eloy et al (2018), para definir possíveis modificações da habitação.

Para o bairro da Malagueira a criação deste sistema foi feita com base na observação das alterações realizadas pelos habitantes, com uma posterior seleção destas alterações com o princípio de criar um equilíbrio entre a qualidade arquitetónica e os desejos dos habitantes. No caso de este sistema ser criado na génese de um projeto de arquitetura o conceito passa por dois cenários diferentes. Um primeiro cenário, no caso de se conhecer os futuros habitantes, é realizar sessões de grupo e definir “famílias” de possíveis alterações. Essas potenciais alterações são depois trabalhadas pelo arquiteto que disponibiliza uma ferramenta ao habitante que este pode usar no futuro. Num segundo cenário o arquiteto, não conhecendo os futuros moradores, concebe um conjunto alargado de potenciais transformações que respondam a potenciais e diversos gostos e desejos desses expectáveis futuros moradores.

Neste processo de desenho participado surge outra dificuldade que é a comunicação entre os arquitetos e os habitantes visto que as ferramentas habitualmente utilizadas pelos arquitetos não são frequentemente compreendidas por leigos na área. Deste modo, e para ajudar os habitantes a entender e explorar as modificações nas suas casas, temos vindo a desenvolver ferramentas de visualização. Essas ferramentas são baseadas em vários modos de realidade mistas: realidade virtual de modo não imersivo, visualizando uma imagem estática visualizada num smartphone ou tablet; realidade virtual de modo semi-imersivo, visualizando uma imagem de 360º também visualizada através de um smartphone ou tablet; realidade virtual ou aumentada de modo imersivo, navegando num modelo 3D usando um Head Mounted Display (HMD).

Referências

  • Aravena, A. and Iacobelli, A. (2016) Elemental: Incremental housing and participatory design manual. Ostfildern: Hatje Cantz Verlag.
  • Eloy, S. (2012) A transformation grammar-based methodology for housing rehabilitation. Universidade Técnica de Lisboa.
  • Eloy, S., Dias, M. Â. and Vermaas, P. E. (2018) ‘User-centered shape grammars for housing transformations: towards post-handover grammars’, in Proceedings of Sigradi 2018 Technopoliticas. São Paulo (Brasil): IAU USP.
  • Habraken, N. J. (1972) Supports: an alternative to mass housing. London (UK): The Architectural Press.

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