Artigos de Opinião

Susana Lucas: “As Nossas 3 Casas”

Susana Lucas,
2PhD, docente da Escola Superior de Tecnologia do Barreiro Instituto Politécnico de Setúbal

Todos nós – à partida – temos 3 casas. A primeira será nós mesmos, o nosso corpo. Depois contruímos a nossa casa, onde habitamos e por fim – ou no início – temos a casa de todos nós o ambiente natural. Estas 3 casas têm e devem interagir, pelo que o que se passa numa delas afeta as outras. Em especial a nossa casa intermédia – a contruída – tanto nos afetas a nós como a casa natural global.

PASSO A EXPLICAR.

Nós passamos cerca de 80% do nosso tempo no interior de edifícios. Pelo menos antes da pandemia, agora podemos mesmo estar a falar de uma maior percentagem. Efeitos menos positivos que o ambiente construído tem em nós pode manifestar-se de diversas formas, que pode passar desde não dormir bem, a ter uma dor de cabeça, alergias ou falta de ar, a doenças mais graves onde se inclui mesmo o cancro. Existem estudos que demonstram a prevalência de determinadas doenças em quem dorme em quartos que está no mesmo alinhamento no edifício, ou casas que estão na proximidade de uma linha água poluída, existindo patologias comuns nos seus habitantes. A nossa saúde e bem-estar estão muito relacionados com os ambientes em que vivemos, tanto o contruído como o natural.

Contudo vamos nesta abordagem nos focar no ambiente construído.

Temos que ter também presente que evoluímos, para o bem e para o menos bom, nos nossos ambientes construídos. Existiu necessidade de efetuar de forma mais rápida, como novos processos construídos e novas tecnologias. Este desenvolvimento que foi efetuado de forma célere não permitiu que verificássemos os seus efeitos na nossa saúde e não só, no ambiente natural.

Outra consequência desta celeridade na construção, levou a ser criada uma indústria, que promoveu o aumento da extração de materiais ao ambiente natural bem como a sua transformação. Além disso com o crescimento das urbanizações tivemos um aumento da impermeabilização do solo e consequente drenagem artificial do mesmo, o que impactou diretamente no funcionamento do ambiente natural, em especial em termos de encaminhamento da água.

O QUE ESTAMOS A VERIFICAR?

Atualmente a setor da construção está novamente com o forte crescimento, contudo com um aumento substancial dos preços, dado que os produtos estão a ficar difíceis de conseguir. Já existe projetos em que não se vai buscar a licença de construção, porque não se sabe se é possível fazer. Parece que começa a existir uma escassez de recursos ou então a indústria teve tanto tempo parada que ainda não conseguiu produzir para este crescimento.

Temos também uma questão – dos processos construtivos que podemos e devemos ter em consideração – a nossa cultura habitacional. Em Portugal, mesmo sendo um Pais pouco extenso (consegue-se num dia ir de uma ponta à outra) temos uma tipologia de casas de acordo com os recursos locais. Temos vindo a perder uma parte significativa desta referência cultural, com uma uniformização da tipologia de construção, em especial na habitacional. Esta cultura habitacional promovia a utilização de materiais locais e características da construção tendo em conta as condições do local. Conseguimos ainda identificar uma casa típica do Alentejo ou uma casa da serra da estrela. Se tivermos no âmbito da reabilitação ainda existe algum cuidado de preservar esta identidade cultura, contudo em construção nova não é tão comum.

O QUE PODEMOS PERSPETIVAR?

Estamos numa fase de desenvolvimento que podemos utilizar o melhor da nossa cultura habitacional com a tecnologia, de forma às nossas 3 casas terem uma melhor ligação. Ou seja, podemos monitorizar a casa construída de forma a esta promover a nossa saúde e bem-estar. Existem diversos aspetos que podemos verificar, tanto humidade, como temperatura, dióxido de carbono ou mesmo campos eletromagnéticos. Como podemos ter uma casa construída que promova a circularidade dos materiais, que possa de alguma forma contribuir para a restituição ao meio natural dos recursos que tiramos dele, ou mesmo ser regenerativa. E essa regeneração passa com certeza pela utilização de materiais naturais que possam voltar à natureza ou então sejam reutilizados.

Outra questão que ainda suscita algumas dúvidas é a de trazer o ambiente natural para o ambiente construído. Temos que ter a noção da importância que as plantas podem ter a nos ajudar a ter melhores ambientes contruídos. Além das plantas produzirem oxigénio, e sempre mais do que o dióxido de carbono quando respiram, na sua maioria as plantas também podem filtrar do ar contaminantes, por exemplo da degradação de revestimentos dos materiais, como o caso das tintas. E ter plantas em casa é ter mesmo em todo o lado, pois é podemos ter plantas que mesmo às escuras produzem oxigénio.

No ambiente contruído, mas à escala urbana, temos que diminuir o nosso âmbito de impacto. Existirem soluções mais naturais de retenção e drenagem da água da chuva. A retenção temporária de voltar a ser considerada, se amortecer os picos nas chuvadas, ou em tempos de chuva, como também a drenagem ser natural, podendo e devendo se considerar a infiltração no terreno, porque o escoamento subterrâneo deve existir e funcionar de forma a não ser tanto à superfície.

Assim, espero, que possamos pensar na nossa saúde de forma integrada com o ambiente construído e com o ambiente natural. Existindo uma melhor ligação entre as nossas 3 casas com toda a certeza todos vamos estar melhor!


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