Sérgio Guerreiro: “Turismo, Dados e Inovação: os territórios inteligentes da próxima década”

Nas últimas décadas, o turismo assumiu-se como uma das atividades económicas mais importantes em termos globais, constituindo uma prioridade de desenvolvimento para muitos territórios em todo o Mundo.
Portugal não é exceção. O Turismo é hoje a maior atividade exportadora do país, estimando-se que a atividade turística tenha gerado um contributo total (direto e indireto) na ordem dos 11,9% do PIB nacional, correspondente a cerca de 34 mil milhões de euros, e continuará a desempenhar um papel importante na economia nacional no futuro.
Depois de muitos anos em que o debate sobre o turismo assentou, sobretudo, em métricas de crescimento (chegadas e gastos de turistas e dormidas), assistimos hoje a um interessante movimento de repensar o papel do setor na sociedade.
Em boa verdade, Portugal foi um dos primeiros países a traduzir essa reflexão no modelo de desenvolvimento estratégico para o turismo. Ao lançar a Estratégia Turismo 2027, em 2017, o setor fixou metas económicas, mas também sociais e ambientais, assumindo que o seu sucesso se mede pela qualidade do crescimento, ponderada pela relação com o ambiente e com as comunidades.
Em termos internacionais, a reflexão da maior parte dos países centra-se, hoje, nessa mesma linha. O desafio deixa de ser apenas crescer e passa a ser criar valor económico, social e ambiental de forma equilibrada, preservando a identidade, reforçando as comunidades e garantindo a qualidade de vida nos territórios.
A próxima década colocará desafios muito mais complexos aos destinos turísticos e às empresas. A pressão sobre as cidades, as alterações climáticas, a escassez de recursos, a transformação tecnológica e crescente penetração da IA, as novas expectativas dos residentes e consumidores e a crescente instabilidade internacional obrigam o turismo a evoluir para um modelo mais inteligente, equilibrado e resiliente. Esta mudança representa uma transformação profunda na própria lógica de gestão do turismo, tanto em termos de desenvolvimento de destinos como das empresas.
Durante muitos anos, os destinos foram geridos tendo como principal objetivo a promoção do território e o aumento da sua notoriedade, esperando que esse trabalho se traduzisse num aumento da procura turística. Agora, isso já não é suficiente. Os destinos turísticos tornaram-se sistemas altamente complexos, onde turismo, mobilidade, ambiente, cultura e espaço público estão totalmente interligados.
Neste contexto de complexidade e crescente incerteza, os dados assumem um papel absolutamente central. Os territórios terão que desenvolver uma maior capacidade de monitorização, antecipação de tendências e tomada de decisão.
Durante décadas, o turismo foi um setor com enorme relevância económica, mas relativamente pobre em informação estruturada para apoio à decisão. Hoje, essa realidade está a mudar rapidamente. A integração de novas fontes de dados, em domínios como a mobilidade, os pagamentos eletrónicos, a conectividade aérea, as plataformas digitais ou as reviews online, permitem construir uma visão muito mais dinâmica e multidimensional dos destinos e dar novas ferramentas a quem tem de tomar decisões.
No Turismo de Portugal, desenvolvemos um trabalho consistente ao tornar essas fontes de dados acessíveis a todo o ecossistema turístico. O lançamento da plataforma TravelBI by Turismo de Portugal teve justamente como objetivo democratizar o acesso aos dados, concentrando a informação num único local, permitindo uma exploração cada vez mais personalizada dessa base de conhecimento e fornecendo novas ferramentas a quem precisa de gerir neste contexto incerto.
Os destinos do futuro serão aqueles que conseguirem utilizar estes dados para tomar melhores decisões: ter capacidade analítica para perceber onde existem riscos de sobrecarga, identificar oportunidades de dispersão da procura, avaliar impactos ambientais e sociais, adaptar estratégias promocionais, melhorar mobilidade ou apoiar decisões de investimento. Os dados assumir-se-ão como verdadeiras ferramentas de gestão territorial.
Por outro lado, esta transformação exige também uma evolução das próprias organizações de turismo. As entidades gestoras dos destinos terão que reforçar as suas competências tecnológicas, assim como a capacidade analítica e o desenvolvimento de mecanismos de colaboração com os atores locais, atuando como dinamizadores de ecossistemas que integrem setor público, empresas, universidades, centros tecnológicos, startups e comunidades locais.
Ao mesmo tempo, existe uma oportunidade estratégica para reposicionar o turismo nacional através de uma lógica mais distribuída e sustentável. A crescente procura por autenticidade, experiências culturais, gastronomia ou turismo ativo, aceleradas pela pandemia, representam novas oportunidades para muitos territórios do interior para se afirmarem como alternativas num mercado global. A sua capacidade de perceber tendências e de desenvolver ofertas competitivas será determinante para o sucesso dessas estratégias.
As empresas enfrentam também uma transformação profunda, impulsionada pela evolução tecnológica sem paralelo, por alterações de padrões de consumo e pela volatilidade da procura que ameaçam modelos tradicionais e que obrigarão o setor a reinventar modelos de negócio.
As empresas mais preparadas serão aquelas que conseguirem evoluir de uma lógica transacional para uma lógica de criação contínua de valor, usando a inovação como pilar de competitividade. Isso implica investir em conhecimento do cliente, personalização, experiência, sustentabilidade, eficiência operacional e capacidade tecnológica.
Mas os dados e a tecnologia não serão, por si só, a solução para todos os desafios.
A capacidade das empresas de se adaptarem a este novo contexto será a base da sua competitividade no longo prazo. A capacidade de continuarem a criar experiências humanas, autênticas e memoráveis alinhadas com os perfis da procura, ao mesmo tempo que integram tecnologia de forma inteligente, aumentando a sua eficiência e libertando recursos humanos para as funções onde podem efetivamente fazer a diferença.
A próxima década exigirá uma nova visão estratégica para o turismo, menos centrada exclusivamente em crescimento quantitativo e mais focada em valor, mais orientada para a inteligência e mais preparada para adaptação contínua.
O futuro do turismo dependerá da capacidade de equilibrar inovação e identidade, tecnologia e autenticidade, competitividade e qualidade de vida.
Porque os destinos mais fortes do futuro serão aqueles que conseguem criar prosperidade sustentável para quem vive, trabalha e visita os territórios.