Alexandra Leitão: “O desafio da economia circular nas cidades”

Dezembro 8, 2020
Alexandra Leitão, Professora na Católica Porto Business School

Mais de metade da população mundial vive atualmente em zonas urbanas, número que se espera venha a ultrapassar os dois terços da população mundial em 2050.  É nas cidades onde ocorre a maior parte da atividade económica e onde é gerado mais de 80% do PIB mundial, desempenhando assim, importante e vital papel no desenvolvimento económico e social dos países.[1]

As cidades consomem 75% dos recursos naturais e geram cerca de 50% da produção global de resíduos.[2] Os níveis atuais de consumo estão a gerar quantidades de resíduos sem precedentes, o que potencia os impactos ambientais negativos da extração dos recursos, o que acresce ao elevado consumo de água e energia nos processos de extração e produção. Estima-se que mais de dois terços da energia mundial seja consumida nas cidades, contribuindo com cerca de 60% a 80% das emissões globais de gases com feito de estufa. Tal verifica-se em apenas cerca de 3% da superfície terrestre, a área ocupada pelas cidades.

Tudo isto resulta em significativa perda de capacidade para que as cidades sejam consideradas como lugares adequados à vida saudável das suas populações. Questões como o tratamento adequado de resíduos, escassez e má gestão de recursos naturais, poluição, congestionamentos nas vias urbanas, criando externalidades com elevados custos sociais, entre outras, são restrições à qualidade de vida da população urbana.

A qualidade e a racionalidade de utilização dos recursos nas cidades são uma questão verdadeiramente crítica. Dado o atual modelo linear de produção e consumo e a evolução esperada da urbanização, vai ser cada vez maior a pressão sobre os recursos e o aumento do desperdício, algo inviável para a sustentabilidade do Planeta.

As cidades precisam definir como prioridade uma transição sistemática do paradigma linear de produção e consumo para um modelo circular, mantendo os recursos e materiais em utilização pelo maior tempo possível, maximizando o seu valor económico. Tal implica um plano holístico que combine estratégias de aumento de produtividade dos recursos, prevenção e gestão de resíduos e aumento de utilização de energia limpa.

A mudança requer os esforços conjuntos de indivíduos, setor privado e setor público. Todos têm um papel a desempenhar na criação de um ambiente propício à transição tão desejada.

Como consumidores, os indivíduos têm um papel chave na alteração de comportamentos e geração de procura. Atualmente, os indivíduos começam lentamente a procurar modelos de produto enquanto serviço, em que os consumidores pagam pela função ou performance do bem, e não pela sua propriedade, evitando custos de manutenção, reparação e de fim de vida útil. Muitos indivíduos estão já conscientes da necessidade de reduzir (ex. evitar a utilização de plásticos), reutilizar (ex. adquirir bens em segunda mão) e reciclar (ex. programas de devolução). Outros Rs, como recuperar, redirecionar, remanufaturar, reformar, reparar, repensar, estão menos difundidos. Antes da reciclagem, estas são vias que devem ser exploradas.

O setor privado deve implementar novos modelos de negócio e projetar os seus produtos incorporando o pensamento circular e criando componentes que possam “fechar o ciclo” na produção. Colaborando com outros atores, como os governos locais, podem desenvolver programas de recuperação dos seus produtos, incentivando ainda mais o desenho e projeção de produtos que podem mais facilmente ser reutilizados e reciclados. Da colaboração com outras organizações privadas podem resultar simbioses industriais, e da colaboração com utilizadores finais pode ser possível a recuperação de bens usados reincorporando-os na cadeia de valor.

O setor público precisa fornecer as infraestruturas adequadas e necessárias e formular políticas e regulamentos que incentivem a inovação e transformação.

Os governos locais estão especialmente bem posicionados para assumir a liderança nesta transição. Embora a sensibilidade dos governos locais esteja a crescer, a verdade é que a maioria não tem ainda noção da urgência desta questão. Tratando-se dos principais responsáveis pela gestão de resíduos ao nível local, têm condições únicas de mapear recursos e colaborar com residentes e empresas na criação de simbioses urbanas e industriais, de modo a “fechar o ciclo” de nutrientes, quer técnicos, quer biológicos.

Devem estabelecer mecanismos de monitorização da utilização de recursos e eficiência com que são utilizados, e estabelecer objetivos, tomando em consideração o contexto local.  Podem dar incentivos ao setor privado, através de subsídios ou incentivos fiscais para a adoção de práticas circulares. Por outro lado, devem eliminar subsídios que encorajam a utilização de recursos ou consumo de energia não renovável e considerar impostos que incorporem externalidades nos mecanismos de preço. Também, podem promover políticas publicas de aquisição de bens e serviços que privilegiem práticas circulares.

O ecossistema de produtores, consumidores e governo local posiciona as cidades de forma única na transição global para uma economia circular. A colaboração de todos os os stakeholders das cidades, cada um trabalhando para acelerar a transição para uma economia circular, permitirá às cidades potenciar a sustentabilidade, trazendo prosperidade aos seus cidadãos no longo prazo dentro dos limites planetários.


[1] World Bank (2020). Urban Development Overview. https://www.worldbank.org/en/topic/urbandevelopment/overview

[2] International Resource Panel (IRP) (2018). The Weight of Cities: Resource Requirements of Future Urbanization. A Report by the International Resource Panel. United Nations Environment Programme, Nairobi, Kenya.