MARE alerta: Portugal na linha da frente da literacia do oceano, falta passar do conhecimento à ação
No Dia Mundial do Oceano, e no âmbito das celebrações dedicadas à Literacia do Oceano, Portugal vê a sua rota científica traçada a nível internacional. A editora Springer Nature acaba de publicar uma obra global em três volumes, editada por Teresa J. Kennedy (Universidade do Texas), que reúne cerca de 250 autores de 42 países e regiões.
Disponível em acesso aberto, o projeto conta com um forte cunho nacional. Em dois capítulos estratégicos publicados nos Volumes II e III, Zara Teixeira, investigadora do MARE – Centro de Ciências do Mar e do Ambiente, deixa alguns alertas e soluções críticas.
Três décadas de atividade, pouca avaliação
O capítulo integrado no Volume III – “Ocean Literacy in Portugal: Three Decades of Experience and Innovative Educational Initiatives Supporting the Ocean Decade” – faz o raio-X mais completo até à data da Literacia do Oceano na área da educação, em Portugal. O país destaca-se como um dos mais dinâmicos da Europa, somando iniciativas desde 1990. Programas de referência como a Escola Azul, O MARE Vai à Escola, CIIMAR na Escola, Educar para uma Geração Azul ou o Coastwatch provam a enorme vitalidade nacional.
Esta experiência acumulada oferece pistas úteis para debates internacionais sobre como transformar conhecimento em ação e integrar a Literacia do Oceano nos currículos, alinhando‑se com recomendações das Nações Unidas.
No entanto, o estudo, que juntou o MARE da Universidade de Évora, o Instituto de Educação da Universidade de Lisboa, a Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC) e o CIIMAR da Universidade do Porto, expõe um diagnóstico preocupante: o país nunca avaliou de forma consistente se estas ações mudam efetivamente comportamentos. Segundo a investigadora do MARE, apenas 30% das iniciativas avaliaram o seu impacto.
“Portugal fez muito, mas só saberá se fez bem quando começar a medir, coordenar e transformar conhecimento em ação”, alerta. O estudo aponta ainda que, entre as várias dimensões da Literacia do Oceano, a do ativismo é a menos explorada, correndo-se o risco de a literacia se tornar um exercício puramente teórico.
Os “Living Labs” como solução para o litoral
Respondendo a um cenário de fragmentação e à falta de canais de diálogo com a administração pública, o capítulo do Volume II – “Living Labs: A Catalyst for Ocean Literacy and Sustainable Innovation” – analisa uma solução prática à luz dos conceitos da Literacia do Oceano, tendo por base o projeto Quinta Ciência Viva do Sal.
Os Living Labs (ou Laboratórios Vivos) são ecossistemas de inovação aberta que testam soluções sustentáveis em contexto real, integrando investigadores, empresas, cidadãos e decisores políticos na cocriação de respostas para os desafios locais.
Ao auscultar 60 atores-chave de salinas artesanais (de Aveiro a Castro Marim), o estudo confirmou que, embora as comunidades locais possuam um conhecimento profundo dos ecossistemas, falta-lhes acesso a ferramentas para transformar esse saber em inovação sustentável. Além disso, há ainda um desconhecimento sobre o verdadeiro papel de um Laboratório Vivo, muitas vezes confundido com meros espaços de comunicação ou resolução de problemas imediatos.
O capítulo defende que os Living Labs podem ser o verdadeiro “game changer” para o litoral português. Ao unirem a ciência, as comunidades e as instituições políticas, tornam-se plataformas ideais para testar soluções sustentáveis em contexto real, mitigar conflitos estruturais e traduzir de vez a literacia em atitudes de conservação marinha e novas políticas públicas.
A partir deste caso português, o capítulo inaugura também uma discussão com relevância internacional sobre o potencial dos Living Labs para impulsionar a Literacia do Oceano e promover comportamentos pró‑oceano.
O apelo da Década do Oceano
Precisamente no momento em que a Década do Oceano exige um alinhamento global, fica o apelo para que esta “energia dispersa” seja convertida numa estratégia nacional integrada, transformando a Literacia do Oceano numa política pública estruturante.
No Dia Mundial do Oceano, fica o aviso: é tempo de dar o salto das iniciativas inspiradoras para o impacto mensurável e duradouro.
Sobre a obra:
- Título: Ocean Literacy Foundation for the Success of the Ocean Decade
- Editora: Springer Nature (Maio 2026 / Acesso Aberto)
- Mais informações e acesso: Link Oficial da Ocean Decade
Texto da responsabilidade da empresa.
Fonte: LPM Comunicação